A ressonância na forma de onda da pressão arterial ocorre em 30,7% dos casos e, quando está presente, conduz a leituras incorretas que podem comprometer a tomada de decisão clínica.
A monitorização hemodinâmica é uma ferramenta essencial em doentes críticos, mas… O que acontece quando a forma de onda da pressão arterial apresenta artefactos?
Uma forma de onda amortecida ou ressonante conduzirá a uma leitura incorreta da pressão arterial e, se basearmos as nossas decisões nela, estas não serão as mais precisas. Neste artigo veremos chaves e ferramentas para evitar que a nossa forma de onda da pressão arterial seja ressonante e, assim, conhecer o estado hemodinâmico do nosso doente e aplicar um tratamento ótimo e individualizado.
Tabela de Conteúdos
Forma de onda da pressão arterial
A onda de pressão arterial é consequência da interação entre o volume sistólico, o volume de ejeção do ventrículo esquerdo e as características físicas do sistema cardiovascular em cada batimento.
É uma onda mecânica, semelhante ao som, e portanto apenas se transmite através de meios físicos. É cilíndrica na sua forma, tem origem no coração e viaja numa frente de onda através das artérias até atingir as arteríolas. Esta onda passa através de um meio viscoso, o sangue, e depois através de um meio muito menos viscoso, o soro, até ao transdutor.
Após aplicação de um algoritmo do Método Pulse Contour à morfologia da forma de onda da pressão arterial, é possível obter informação que permite aos clínicos analisar o estado cardiovascular dos doentes.
Para identificar artefactos na forma de onda da pressão arterial, é essencial conhecer a sua forma e as suas partes. Em maior ou menor grau, toda a forma de onda da pressão arterial deve constar de 6 pontos:
- Subida sistólica
- Pressão sistólica
- Queda sistólica
- Entalhe dicrótico – uma das partes mais importantes, pois representa o fecho da válvula aórtica e divide o ciclo cardíaco entre sístole e diástole
- Descida diastólica
- Pressão diastólica

A ressonância pode alterar a sua morfologia, pelo que conhecer as suas partes permitirá identificar rapidamente artefactos.
O que é a ressonância?
Quando observamos uma forma de onda com ressonância, verificamos oscilações muito acentuadas que podem conduzir a uma pressão sistólica sobrestimada e/ou a valores de pressão diastólica subestimados, enquanto o entalhe dicrótico geralmente permanece bem visível e pronunciado.

A forma de onda da pressão arterial é ressonante?
Existem várias manobras que podem ser realizadas para determinar se a forma de onda da pressão arterial invasiva (PAI) é fiável:
- Se dP/dt > 1,7 mmHg/msec, podemos suspeitar que a sinalização apresenta fenómenos de ressonância (também chamados underdamping).²
- Teste da onda quadrada (Flush test): dependendo do número de oscilações, podem suspeitar‑se fenómenos de ressonância ou amortecimento excessivo. Assim:
- Poucas oscilações após libertação do flush → valores exatos: sinal de forma de onda adequadamente amortecida.
- Mais de 2 oscilações → podem indicar ressonância, com pressão sistólica sobrestimada e diastólica subestimada.
- Oscilações lentas ou ausência de oscilações → a forma de onda pode estar amortecida, com subestimação da pressão sistólica e pressão diastólica possivelmente não afetada.

4 chaves para evitar fenómenos de ressonância
Para evitar fenómenos de ressonância, devemos considerar os diferentes dispositivos que fazem parte do sistema de pressão arterial.
1. Cateter Arterial adequado
Deve ser utilizado um cateter com comprimento, diâmetro e material apropriados.
O polietileno é um material intermédio em termos de rigidez e memória, sendo relativamente rígido e pouco sensível ao calor, permitindo boa transmissão da onda de pressão arterial ao longo do tempo.
2. Colocação do Cateter
Na Europa, são colocadas em média 2,5 milhões de linhas arteriais por ano. Contudo, como qualquer técnica ou procedimento, não está isenta de complicações. Para as evitar, existem boas práticas como o método RADIALS para cateterização da artéria radial:
- R – Ratio (Catheter to Vessel): medir o diâmetro arterial e manter CVR < 45%
- A – Allen’s Test & Assessment: avaliar circulação colateral
- D – Distance from Wrist: local de inserção > 4 cm proximal à prega do pulso e evitar áreas de flexão
- I – Integrity of the Skin: inspecionar pele do pulso/antebraço
- A – Angle of Insertion: medir profundidade e inserir com <30° sob ecografia; evitar >45°
- L – Length of Catheter: considerar comprimento total do cateter face à profundidade da artéria
- S – Securement: estabilização sem suturas, para evitar remoção ou deslocação acidental

3. Transdutor de boa qualidade adequado ao Doente
Os sistemas de monitorização caracterizam‑se por:
- Frequência natural: quantifica a velocidade de oscilação e condiciona fenómenos de ressonância
- Coeficiente de atenuação: quantifica forças de fricção e determina a rapidez de retorno ao estado basal, influenciando fenómenos de amortecimento
4. Otimização do amortecimento
Existem monitores hemodinâmicos no mercado que já possuem software interno automático para reconhecer e otimizar a ressonância.
Um filtro eletrónico dinâmico está disponível no método P.R.A.M., validado em estudos que demonstram a sua utilidade na eliminação de ressonância.¹
O software analisa automaticamente características específicas da forma de onda da pressão e, quando necessário, aplica um filtro para otimizar a sinalização. Uma vez ativado, corrige contínua e automaticamente a ressonância na forma de onda da pressão arterial.¹
Bibliografia
- Foti L, Michard F, Villa G, Ricci Z, Romagnoli S. The impact of arterial pressure waveform underdamping and resonance filters on cardiac output measurements with pulse wave analysis. Br J Anaesth. 2022 Jul;129(1):e6‑e8. doi:10.1016/j.bja.2022.03.024.
- Romagnoli S, Ricci Z, Quattrone D, et al. Accuracy of invasive arterial pressure monitoring in cardiovascular patients: an observational study. Crit Care. 2014;18(6):644. doi:10.1186/s13054-014-0644-4.

